Antes de ler (se você realmente pensou em ler esse troço enorme), leia o post anterior a esse. Agradeço =)

O despertador soou como um machado despedaçando todos os sonhos daquela noite curta. O pequeno homem, de estatura e de coragem, se levantou de seu sono de poucas horas imaginando que nunca seria feliz novamente e, após muito rodopiar pelo aposento sujo, abriu a janela. Os vestígios de delírios noturnos ainda cobriam seus olhos. Foi então que, após muito esfregá-los, a paisagem se fez clara, na medida que a massa grotesca de poluição permitia. A cidade se mostrou dura e fria, com os sons opressores de seus motores em constante atividade, suas linguagens inapropriadas e as grandes massas de corpos prontos a exercer funções cujo sentido para suas vidas talvez nunca descobrissem. Percebi, então, enquanto meus pensamentos eram organizados, que este pequeno homem de poucos traços era eu.
A cidade me causava quase tanto nojo quanto a minha própria imagem refletida nos espelhos de hotéis baratos, desses que já capturaram toda a desgraça da terra em seu universo virtual. Umas cópias tristes de misérias, eu pensava enquanto despejava água e ímpeto em meu rosto. Foi com esse ímpeto que me vesti; primeiro as meias, depois as cuecas e então todo o resto desordenadamente, como uma espécie de ritual. A vida de escritor havia me dado algumas manias, visualmente inúteis. Alguns minutos depois, já vestido, me encaminhei para a porta e, posicionando minha mão na maçaneta já coberta por uma espessa camada de sujeira de muitos anos, a abri. Encaminhei-me para o corredor escuro, sendo essa a primeira vez que o atravessava sem me deparar com algum tipo asqueroso, animal ou vegetal. Talvez o dia fosse promissor.
Enquanto descia as escadas, caderno em punho, não pude deixar de notar certa quantidade de uma substância esbranquiçada, por todo o corrimão, do quarto ao primeiro andar. Descrevê-la é inútil, nunca alcançaria sua textura pegajosa e seu odor fétido com palavras. Talvez fosse aquele um sinal claro de que o dia não ia bem. Quando cheguei ao térreo, totalmente nauseado, ainda assim me pus satisfeito por, em decorrência da minha exposição à gosma, não necessitar de café da manhã. Os tempos eram duros para os poetas e minhas notas não me dariam mais que uma refeição por dia por um longo período. Talvez aquela manhã me desse a inspiração necessária para alguns versos dignos de nota. Talvez me ofertasse um emprego menos ilusório. Escrever era tudo para mim, mas existem certos momentos em que desejaria estar fazendo contas. Números atraem números e nenhuma atividade é tão prazerosa se seu corpo clama por alimento. Ainda assim, não reclamo. Nunca se sabe o que o tempo pode jogar em nossas faces, afinal. Cheguei à recepção.
Um lugar úmido, com cerca de centenas de milhares de digitais anônimas impregnadas em suas chaves velhas e gastas. Meu lar por quase três meses. Não havia ninguém lá. Larguei a chave displicentemente no balcão, como já havia feito diversas vezes antes, e me dirigi para a praça, onde passava a manhã escrevendo minhas poesias inúteis. Neste momento, não me lembro se já pisando na calçada, olhei ao meu redor.
Meus olhos não poderiam acreditar naquela imagem grotesca diante de mim. Todas as pessoas, sem exceção haviam se transformado, todos eles, em terríveis e nojentos vermes. Não conseguia digerir aquela nova realidade que se mostrava tão clara diante dos meus olhos. Ruas inteiras cobertas por aquela substância amarela que há poucos minutos avistei na escada. Era mais do que eu podia suportar.
Eram todos vermes. Vermes se movendo, lentos, pelas ruas e avenidas, dúzias de vermes. Excretando aquela gosma nauseante por todos os seus poros enquanto desfilavam roupas caras e bem passadas em seus corpos roliços e pegajosos. Meu estômago convulsionou. Um fluxo enérgico transpassou meus órgãos até a minha boca. Apoiei-me em uma parede, manchando a manga da minha camisa amarrotada com a tinta fresca de uma pintura que não deveria estar lá. Gotas de suor cobriram meu rosto, muito mais humano agora, enquanto colocava minhas mãos trêmulas nos bolsos do meu grosso casaco. Vermes. Todos vermes. Movendo-se naturalmente, tomando ônibus, ingerindo alimentos que fazem mal, utilizando sua típica linguagem vulgar. Vermes, mas vermes muito humanos. Tudo bem, senhor? Não pude fazer nada além de fitar a grande massa clara de terno que me questionava acerca do meu estado. Será que não percebem? Vermes. Corri.
Cheguei à praça central em cerca de um quarto do tempo. Já não sentia perfeitamente minhas pernas. Minhas forças se esgotaram em um banco já muito afetado pelo tempo que combinava perfeitamente com a grande praça. Naquele horário, o bloco de cimento enegrecido geralmente ficava vazio, fora alguns tipos duvidosos que já figuravam como peças permanentes do local. O lugar perfeito para dar vazão aos meus impulsos, escrever tudo o que se passasse pela minha cabeça, o que não era, geralmente, bom o bastante para me gerar mais do que o que eu precisava para me alimentar e pagar hotéis de quinta categoria. Obviamente, hoje não estava lá para escrever. Com a cabeça entre as mãos, a única coisa que poderia pensar era na roleta russa em que eu me encontrava e, é claro, quantas balas ainda restavam no revólver. Neste momento, algo se passou pelo que ainda me restava de consciência. Ainda havia esperança. Talvez mais pessoas que não houvessem sofrido a terrível metamorfose. Então, como um sinal divino, algo entrou pelos meus ouvidos sorrateiramente; certa melodia doce. Um som claro, intenso, que preenchia a praça triste e revigorava meu ânimo abalado. Cheguei à conclusão de que, definitivamente, um verme não poderia produzir notas tão belas. Levantei-me.
Após caminhar um pouco, o avistei. O Bach das praças abandonadas. O Mozart dos desabrigados. Se não completamente humano, o mais humano disponível naquele momento. Não pude deixar de exprimir a minha satisfação por encontrar, enfim, alguém. Ele nada disse. Senhor? Continuou quieto, olhos fechados, tocando o velho violino que era, certamente, companheiro de outros tempos. Senhor, acaso não vê que todas as pessoas são vermes? Começava a me sentir agitado. Foi então que, interrompendo a melodia, perscrutou-me, os olhos marejados. Vermes ou não, ainda ouvem, meu jovem. E enquanto houver ouvidos para as minhas singelas notas, tocarei. É tudo o que me importa. Cerrou novamente os olhos e continuou, um ritmo triste que elevou meu desespero enquanto tentava me distanciar. Um louco, de certo.
Caminhei por ruas que não conhecia tentando evitar o contato com os seres que agora rastejavam por todos os cantos da velha cidade cinzenta. Corri, por certos pontos mais tumultuados e olhando para todos os cantos, como a procurar uma resposta. Foi então que algo se pôs em meu caminho e caí. O canto esquerdo do meu rosto foi o que mais sofreu batendo diretamente na calçada fria. Levantei-me ainda um pouco tonto tentando encontrar o que me derrubara. Um mendigo. Um miserável que, em outros tempos, não seria considerado humano, mas que agora poderia ser minha única companhia. Ele clamava por moedas enquanto os vermes passavam despejando gosma fedida em seus pés calejados. São vermes! Não vê? Ele riu. Sem dúvida, eram vermes. Vermes cheios de moedas. Amaldiçoei-me por pensar, por um momento, que um ser como aquele poderia me entender. Estava fora de si, logicamente.
Ainda no meu caminho, avistei uma moça que pintava. Pensei, de súbito, que ela poderia me ajudar. Estava enganado. São vermes! Vermes! Meu coração pulsava. E o que fizeram de mal? Me deixe trabalhar, sim? Ela também não entendia. Ninguém entendia. Eram, no fundo, todos vermes.
O relógio mostrava o fim da manhã e com ele o fim de todas as minhas esperanças. Voltei ao hotel. Após trancar seguramente a porta, me pus a analisar a situação. Como viver em um mundo repleto de vermes? Escrever, andar pelas ruas, comer comida feita por eles. Não, não podia mais escrever. Vermes não apreciariam a minha arte assim como os humanos não apreciaram. Ser rejeitado por vermes era demais para mim. Escrever para simples vermes, jamais! Em um acesso de fúria, recolhi meus papéis, usados e novos e, num único impulso de ódio, abri a janela de vidros há muito tempo rachados e atirei tudo aos seis andares abaixo.
Sentei-me tentando imaginar o que fazer. Horas se passaram e caí no sono. Em meus sonhos, corria sem que ninguém me perseguisse. Quando acordei, já era manhã e eu estava banhado de suor. Fui ao banheiro. Por força do hábito, não acendi a luz e me dirigi diretamente à pia para lavar o rosto. Após jogar água repetidas vezes sem sucesso para me livrar do suor é que, tateando cego, cheguei ao interruptor. Foi como se meus olhos tivessem sido perfurados impiedosamente. Levei vários minutos para me acostumar à claridade que antes me era tão habitual. O motivo se mostrou através da massa branca e pulsante que vi no espelho. Eu era, agora, um deles.
Um verme. Um enorme e grotesco verme. Minhas mãos, ou o que eu julguei serem minhas mãos, estavam brancas e úmidas, estranhamente moles. Eu, definitivamente, nunca mais escreveria de novo. Por um momento me pareceu até libertador, mas então a tristeza veio, implacável, e lágrimas brotaram em meus olhos cansados enquanto eu batia com meu corpo na pia e pelas paredes.
Durante o meu desespero, a vi. Acabava de sair das profundezas imundas do ralo uma pequena barata a rir da minha desgraça. Aproximei-me com cuidado, era bom reconhecer algo mais degradante que a minha própria imagem. Só quando cheguei suficientemente perto é que pude notar que tinha mãos. Mãos de verdade. Talvez fosse um pequeno macaco? Passou-se um milésimo de segundo até que eu pudesse notar que aquilo que eu julgava um inseto era, na verdade, um homem. Um minúsculo ser humano que havia saído do esgoto e agora jazia onde antes estava meu pé. Senti a mesma ânsia de vômito da manhã. Sentei-me. O pequeno humano me observou com olhos curiosos até que, abrindo a boca lentamente, falou, uma rouquidão própria das bestas, olhando fundo em meus olhos. Não vê, M., que isto é tudo ilusão de uma mente perturbada? Estás alucinando.
Existem certos sentimentos e ações puramente humanos. No meu estado, não reconhecia a maioria deles. Não sabia se ainda era capaz de vomitar, mas uma atitude tipicamente humana se passava pela minha cabeça quando segurei, trêmulo, o meu sapato: matar. E foi essa lembrança que me levou a esmagar o pequeno homem do meu banheiro, recolher seus restos e atirá-los na privada. Agora voltava para o esgoto, que era seu lugar. Não gritou. Foi tudo bastante fácil. Fácil demais para que minha mente ficasse tranqüila. Remorso. Outro sentimento típico do ser humano. Desesperei-me, já não conseguia ordenar os pensamentos. As lágrimas caíam, sem autorização. Estava tudo perdido.
Este sinal foi claro. Eu já não era mais um ser humano. Um temor indescritível tomou conta de mim enquanto cambaleava de volta ao quarto. O que fazer? Clamar a Deus por perdão? Apoiei-me na janela, visto que minha nova constituição era escorregadia e eu ainda não havia me acostumado a deslizar. Infelizmente, para mim, a janela estava ainda aberta. Foi uma queda única para o fim. Os milésimos de segundo que se passaram até o baque definitivo foram bastante lúcidos. Pude sentir o vento que percorria meu corpo inerte e levava consigo minhas dúvidas, problemas e angústias. Será mesmo que sorria? E então minhas palavras se calaram para sempre. Um pequeno distúrbio para o cotidiano da grande cidade.
No chão, comentavam o caso os homens de negócios, prostitutas, crianças e as velhas que já haviam perdido o gosto por cultivar plantas. Um rapaz tão jovem. Dizem que aconteceu gradativamente, após ter seu livro recusado incontáveis vezes. Não conseguiu suportar a pressão, se jogou da janela. Essa vida de escritor não é fácil. Será que não tinha família, o pobrezinho? Tão jovem, tão bonito. E, decididamente, louco.
Conto perfeito! Me fez viajar e imaginar cada cena como todo texto de exímios escritores. As palavras enautecem os detalhes, fazendo com que eu tivesse cada sensação do personagem.
ResponderExcluirDe tirar o fôlego,Marília. Com certeza,merecedor do primeiro lugar.
ResponderExcluirIncrível, epifânico! Se você não conquistasse o primeiro lugar, seria injustiça, com certeza. Você já escreve como os grandes.
ResponderExcluirAgora, que tal um romance para o Prêmio São Paulo de Literatura ou mesmo o Prêmio Leya???
Caramba, Mah, vc não sabe quantas vezes eu cheguei até a parte q ele desce do apartamento e vê os vermes... hauahauahau
ResponderExcluirCara, a contraposição entre o nojo dele pelos "outros", vermes ou não, e a necessidade da existência desses outros foi a melhor parte. Especialmente no trecho do "Vermes ou não, ainda ouvem, meu jovem".
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Tá perfeito, cara! Ainda mais o desfecho do "escritor louco q acho q todos os outros são inferiores e não entendem sua arte" hauahauahu
Escrevendo cada vez melhor, Marília. O primeiro lugar foi, sem dúvidas, merecedor. Sabe que o personagem, a história, me fizeram pensar em Tonio Kröeger, do Thomas Mann? Você escreve como poucos. Um abraço carinhoso.
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