sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sonoplastia


Era cedo. O sol acabara de nascer. Em uma mesa já muito castigada, um escritor encarava uma folha de papel em branco. Então, lápis em punho, ele descobriu que as pessoas são vazias pela manhã. Mas já não conseguiria voltar a dormir.
Foi então que se aproximou da folha alva e pôde ouvir, baixinho, pardais que piavam melodiosamente na imensidão branca e toda a mágica de escrever brotou, em mi menor, nos seus ouvidos. Podia ouvir, de sua folha antes inanimada, as poças d’água onde pipocavam de um lado a outro com seus pezinhos e, subitamente, TCHBUM! Tudo se espalhou quando um transeunte desavisado pisou em falso, na poça. Era uma moça, podia ouvir os saltos ritmados, TUM, TUM, TUM. Inseguros o suficiente para arriscar que fossem de uma donzela.
Sua audição astuta acompanhava o farfalhar melodioso do vestido. Tecido forte, provavelmente fazia frio. Sim, podia sentir seu xale delicado a arranhar as costas pequeninas. Era necessário descobrir seu nome. Questionou a folha de papel, sem resposta. Não tentou novamente, também, pois não podia manter o ouvido a mais que alguns milímetros de distância do papel.
Buzinas surgiam, ao longe. O fino carbono barulhento acusava uma grande cidade. Pessoas murmuravam, mas só lhe interessava ouvir os passos da bela dama. Sim, era bela. Seus ouvidos não mentiam. Gostaria mesmo de saber seu nome.
Ela seguia, inquieta, sem notar que a acompanhavam com os ouvidos. Um pedaço de papel se retorcia em suas mãos, pensou o pobre escritor angustiado com aquela presença que ele não conseguia conceber ou largar. Neste momento crucial da trama, estava tão interessado que já não sentia falta do outrora sagrado café da manhã. Sua donzela o encantava. Sua, afinal, ele próprio comprara a folha de papel na véspera por uma pechincha e... espere. Parou. Todo o lugar acalmou-se e só era possível para ele ouvir, ao fundo, um revolver de águas - provavelmente de um rio.
Podia ouvir a madeira estalando aos passos, agora curtos, da sua senhorita. Então, cessaram. As mãos se prendiam arduamente ao papel que seguravam e, do outro lado e ao mesmo tempo, o escritor espremia sua orelha contra seu próprio papel falante. Então, soou, discreto, um barulho estranho. TIC, TIC, TIC, contínuo, no tecido, no papel, em suas bochechas macias e seus lábios bem desenhados. TIC, TIC, TIC e um abrir e fechar de olhos, lábios que tremiam, incontroláveis. Moças bonitas não deveriam, nunca, chorar. Mas ela chorava. Talvez não fosse bonita, afinal. Não, ele tinha certeza de que era.
O jovem escritor se sentiu sufocado com o tamanho Fá de lágrimas. Um soluço fundo, tão triste que fez seu lápis se partir em sua mão, pôde ser ouvido seguido, então, de um CLECK profundo da madeira. A água corria feroz em baixo da velha ponte.
Um riso sufocado chegou, subitamente, aos seus ouvidos. Um tipo de riso familiar, riso de profunda resignação. E então um TEC, no próprio quarto, de seu cérebro estalando tomou, por instantes, o lugar da cena triste.
Foi aí que o Tempo, com dó, andou mais devagar, só pelos curtos segundos que se seguiram do grito ao forte som de um corpo leve, de donzela, caindo na água dura. A lentidão própria da eternidade. E tudo emudeceu. O escritor acordou.
Apertava seus negros fios de cabelo entre os dedos sem calos e respirava, ofegante. O coração, acelerado, TUM, TUM, TUM, relutava em acreditar no que acabara de presenciar. Certamente fora um sonho. A folha de papel se calara para sempre. Somente um pouco de ar fresco e organizaria seus pensamentos novamente.
Abriu a velha janela com um forte rangido e pôde ouvir os sons naturais da velha cidade. As carruagens que cruzavam as ruas seguidas do rígido som dos cavalos galopantes e os gritos das crianças bagunceiras que, aproveitando o descaso de suas mães, pulavam nas poças d’água. Choveu na noite anterior e isso reuniu alguns pardais que piavam animadamente pelas calçadas molhadas. Um piar quase estridente abafado somente pelo pisar forte de passos. Saltos de moça. Exalando a insegurança das donzelas.
Sua respiração se conteve. Seus olhos perscrutaram a figura baixa e bela que caminhava agilmente na rua fria. Levava um pequeno xale às costas e, nas doces mãos: um pedaço de papel!
E depois disso o único som a ser ouvido era o bater da porta de seu quarto. Um CLOCK barulhento e apressado.

11 Cortes Letais:

  1. Muito bonito, moça! Já sentia saudades dos seus memoráveis textos.

    Minha passagem preferida: "Foi aí que o Tempo, com dó, andou mais devagar..."

    Não posso deixar de pensar que foi mero acaso, hehehehe.
    beijos!

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  2. Ahá! Fui uma das primeiras a ler esse texto, independente do tamanho! ;D
    (me sentindo orgulhosa do feito...)

    Eu sempre acho tramas psicológicos mais "mágicos", justamente pq até o improvável poderia acontecer... mas que seria legal se personagens saíssem das folhas de verdade, seria... rs
    Ficou bem trabalhado o esse final, deixa o leitor ansioso rs

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  3. Lindo, excepcional!!!! confesso que meu fraco é poesia, mas a sua prosa me encanta mais do que tudo, não resisto aos seus textos, sempre me encanto com vc!!! Parabéns =)

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  4. Incrível,Marília.

    Eu iria adorar que meus personagens saíssem do papel.

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  5. Nossa, texto muito envolvente, marcante, repleto de belas descrições. Parabéns, mais uma vez. Abraços!

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  6. Ah, menina! Que bom ler um texto seu novamente, depois do "exílio".

    Cada vez mais genial e magnífica!

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  8. tive a honra de receber esse texto em papel com a letrinha da própria Marília *-*. Nem vim aqui antes dizer o quanto adorei porque pretendo fazer isso na carta que vou mandar. Respondendo já, claro que ainda vou te escrever espero que nunca paremos de nos comunicar por cartas! é que eu estou muito atarefada memso com o fim do semestre, infelizmente só poderei te escrever em julho :( Beijo!

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