segunda-feira, 21 de junho de 2010

Espelho


A garota se mira no espelho da sala escura. O espelho, muito acostumado a miragens inesperadas, permanece estático. Em sua cabeça, um fio, brilho de lembrança, vaga solitário e, não encontrando abrigo acolhedor, se vai perder nos confins do infinito.
"Já foste mais bonita", disse o espelho deixando transparecer certa melancolia típica das pobres almas que já sentiram, ou pensam que sentiram, todos os efeitos inebriantes do mundo e acordaram como se ainda não houvessem nascido. A garota, no entanto, nada argumentou, acostumada que estava a devaneios aleatórios.
"Cortaste teus cachos, a inocência dos teus cabelos. Tingiste teu rosto de mentiras. Disseste, mais de uma vez, não ao amor.", prosseguiu implacável como se buscasse imprimir alguma marca reconhecível de sentido no rosto sem vida, reflexo de seus caprichos de espelho.
Ela, indiferente, retocou o escuro batom que marcava, escarlate, seus lábios quase inexistentes de muitos beijos vazios e suspirou, sem romantismo.
"Não sabes chorar. Finges. Compras os sonhos de outros; já não possuis teus próprios. Teus olhos de velha menina já não podem ver. És perdida...", mas ela não o ouviu. Passou naturalmente ao próximo cômodo, ato reflexo de sua inexistência, deixando o espelho, enfim, só.
As dores da carne não eram capazes de enganá-la: espelhos não têm memória. E as pegadas que um dia marcou na areia; estas há muito tempo haviam sido apagadas para sempre.
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Resolvi parar com a viadagem e postar aqui - -. Simples assim.
Isso era o início de alguma coisa.

9 Cortes Letais:

  1. Eu faria um comentário profundo e filosófico sobre a transformação das pessoas, o impacto do texto em mim e sobre como a parte de um espelho falando me lembra Branca de Neve, mas você ia achar que eu o estaria fazendo só pra te agradar.

    De qualquer forma, continue superando a viadagem e larga dessa de virar o Rimbaud.

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  2. Se era o início de alguma coisa, essa alguma coisa é ou será magnífica. Envolvente ler a tranformação dessa garota através do espelho-tempo.

    E, novamente digo, muito bom ler um texto seu!

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  3. hauahuha
    "larga dessa de virar o Rimbaud" nada! Agora, tem que "superar a viadagem" mesmo! humpf!

    Adorei a escolha de palavras, várias espalhadas que remetem ao espelho... muito bom, menina!
    (isso não é puramente tietagem)

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  4. Quando falo de largar de virar o Rimbaud, Dona Lia, me refiro a uma tendência anterior de Marília, que dizia que já tinha escrito tudo o que tinha pra escrever (e provavelmente iria querer sair pra África caçar elefantes também).

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  5. quando eu concluir minha faculdade de psicologia farei uma pesquisa com o titulo "Síndrome de Rimbaud". Mas deixemos isso de lado. Tenho gostado bastante de seu contos. Estava até pensando nisso ontem, sério, de como seus contos são interessantes, não que eu não goste dos poemas, mas seus contos tem aquele toque de Lispector, uma prosa poética. Go on!

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  6. gostei muito do texto,
    finalmente você voltou . minha escritora preferida.
    não tem unidade de medida prá dizer o que provoca o seu texto. talvez uma braça e um alqueirão mineiro de emoções. beijos da sua tia agrônoma.

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  7. Marília *___* Saudade de ler as coisas que você escreve. Eu matei aquele blog que você fez pra mim já a algum tempo, hoje eu fui procurar mas eu acho que já se decompôs. Portanto fiz outro e vim humildemente pedir pra você passar lá e dizer o que acha. Beijos com muitas saudades ;**
    http://brometodepotassio.blogspot.com/

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