quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Em oposição à falta de comentários

"Já não sou capaz de dizer agora como é que vim para a música, todos na minha família eram desprovidos de sentido musical, eram antiartistas. Toda a sua vida tinham odiado acima de tudo a arte e o espírito, mas esse facto foi provavelmente determinante pra mim, determinante para um certo dia me apaixonar pelo piano, que inicialmente detestara, para trocar um velho Ehrbar de família por um Steinway realmente magnífico, e para o exibir perante a família que eu detestava, para passar a trilha a via pela qual ela sempre sentira repugnância. Não fora a arte, não fora a música nem o piano, fora unicamente uma atitude de oposição aos meus familiares, pensava eu. Eu odiara ter de tocar no Ehrbar, os meus pais tinham-mo imposto, tal como acontecera a todos na família, o Ehbar tinha sido o seu núcleo artístico e nele haviam tocado tudo até às últimas peças de Brahms e de Reger. Eu odiara esse núcleo artístico familiar, mas ao Steinway, que extorquira ao meu pai e trouxera de Paris nas mais difíceis circunstâncias, a esse amara-o. Tive de entrar para o Mozarteum para lhes fazer ver isso tudo, eu nã tinha propriamente queda musical e nunca sentira paixão por tocar piano, mas servia-me disso como meio de afrontamento aos meus pais e a toda a família, servia-me disso contra eles, e comecei, também contra eles, a  dominar o piano, a melhorar de dia para dia, a ganhar de ano para ano um virtuosismo cada vez maior. Entrei para o Mozarteum para os contrariar, pensava eu já dentro da estalagem. O nosso Ehrbar estava na chamada sala de música e constituía o núcleo artístico deles, com o qual se exibiam triunfantes nas tardes de sábado. Ao Steinway evitaram-no, as pessoas deixaram de vir, o Steinway acabara com a era do Ehrbar. A partir do dia em que pela primeira vez toquei no Steinway deixou de haver um núcleo artístico na casa dos meus pais. O Steinway, pensava eu, já dentro da estalagem e olhando em volta, foi uma arma apontada aos meus. Entrei para o Mozarteum para me vingar deles e só para isso, para os castigar pelo crime que haviam praticado em mim. Tinham agora um filho artista, alguém que do seu ponto de vista era desprezível. E eu servi-me do Mozarteum contra eles, servi-me de todos os meios que essa escola me oferecia para me opôr a eles. Se me tivesse dedicado às suas indústrias cerâmicas e tivesse passado toda a minha vida a tocar no seu velho Ehrbar, então teriam ficado felizes, por isso afastei-me deles instalando na sala de música o Steinway, que custara uma fortura e que, na realidade, tivera de ser trazido de Paris para a nossa casa. Primeiro tinha exigido o Steinway, depois, como corolário do Steinway, a entrada no Mozarteum. Não admiti, tenho de o confessar hoje, a mínima recusa. Tinha-me decidido da noite para o dia a ser um artista e exigia tudo. Apanhei-os de surpresa, pensava eu enquanto olhava em volta de mim na estalagem. O Steinway era o meu bastião contra eles, contra o seu universo, contra a estupidez da família e a estupidez do mundo. Eu não tinha nascido para ser um virtuoso do piano, como o Glen nascera e talvez mesmo o Wertheimer, mas no caso deste último não posso afirmar de certeza absoluta, mas forcei-me simplesmente  a sê-lo, convenci-me a mim próprio de que o seria, pratiquei até o conseguir, devo confessá-lo, com a maior desconsideração por eles. O Steinway deu-me de repente a possibilidade de lutar contra eles. Em desespero de causa havia-me decidido a ser artista para me opor a eles, que era o que estava mais ao meu alcance, a ser um virtuoso do piano, se possível a ser logo um virtuoso de renome mundial, esse odiado Ehrbar na nossa sala de música é que me tinha dado essa ideia, eu usei essa ideia como uma arma contra eles, desenvolvendo esse ataque com a maior das perfeições."


O Náufrago - Thomas Bernhard

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