Eis o que se segue, com agradecimentos especiais a Eduardo Martins, por sua paciência em lê-lo e comentá-lo.
O
Ovo
Despertou
assumindo pela pele úmida, imersa no calor gelatinoso, os limites de seu
cárcere. Seu primeiro sentimento de mundo, o tolhimento e certa pressão
constrangedora no peito nu. Pressão e abandono, em tráfego; o sangue banhava a
carne viva, modelando a frágil conjuntura formada por microscópicos fragmentos,
sem consciência plena de sua forma.
Apreendia,
os olhos abertos, imerso na escuridão, os limites insensíveis de sua casca. A
lisidez do invólucro abraçava seu corpo contido, embalado pela ânsia adormecida
de movimento; a pretensão ao fluxo asfixiando os membros, forçando-os a se
debaterem por esse movimento livre, independente, ocasionando uma rachadura no
casco. O som, primeira noção de ruptura, vibrou, evidenciando todo o
imediatismo e devastação da quebra. O pânico congelou seus músculos
recém-formados. Aprendeu, com o corte, o sentimento do laço. Seu casco era,
antes de barreira opressora, um berço de proteção contra o que não podia
compreender; contra a consequência, talvez letal, do salto que significa a
separação. O calor do aconchego acolheu seu corpo. A sombra limitando,
acolhedora, sua visão e vislumbre imaginativo de uma realidade hostil que se
escondia além do limiar distinguível da estrutura pálida. Adormeceu.
Foi
acordado por um choque enérgico à esquerda de seu corpo. O ambiente mudara. Na
diferença de cor, pôde perceber com detalhamento indecoroso a complexidade
fibrosa que o envolvia construindo uma noção mais real do que era a conjugação
de minúsculas partes em todo uno, firme, inabalável. A emoção possuiu seu peito
despertando o desejo de louvar tudo o que é rígido e com valor de eternidade,
mas cessou.
A
furiosa intriga gerada pelo choque desviou seu pensamento-primeiro. Revirou seu
corpo em formação produzindo um uivo grosseiro e forte de modo a despertar a
entidade brutal do outro lado da casca. Nenhum ruído. Mexeu e rolou, com alguma
dispersão mental, mas não houve resposta. O calor do mistério amaciava sua
carne num fremir contínuo de escuridão. O medo acomodava-se em seu espírito de
modo a compor peso imperceptível ante a voracidade do seu desejo; a casca
moldando-se em obstáculo a ser transposto. A firmeza calcificada de seu corpo
ansiava pelo rompimento com a treva do calabouço de sua mente e ovo, as
artérias pulsando a precisão inabalável do tempo.
O
fluxo enérgico escravizou seus músculos, forçando-os a romperem com alívio e
dor excruciante o invólucro, permitindo que um fio de luz quebrasse a
superfície vítrea e esbranquiçada de seus olhos. Grunhiu. Não sabia, não conhecia
a natureza da luz que, como a escuridão, cega. Desejou a cegueira indolor de
sua matriz protetora, o desamparo escavando a carne de seus tornozelos qual
correntes de aço imobilizando sua parte inferior. Era esse o meio do salto
previsto, o abismo da incompletude pairando sob seu corpo elevado, evidenciando
o resultado da falha.
Temia
a dor e desconhecia a morte. Movia-se pelo desejo buscando o outro lado da
falha. Libertou, por fim, a sua forma mole encobrindo com a gosma cinza
primordial a superfície rígida na qual se sustentava cambaleante, os olhos
ainda lacerados pela súbita iluminação. Deixando-se banhar pela sensação das
coisas, não forçou abri-los. Preferiu antes alimentar seus outros sentidos
famintos de novidade. O cheiro e sensação do vento e o sabor rude de suas mãos
flutuavam inconscientes como provas de verdade. O sentimento de imutabilidade
transcrito em som, sabor e sentido; fugaz como o que um dia foi ovo e hoje se
desmancha sobre seus pequeninos pés.
Abriu
os olhos como a oferecer em sacrifício a sua visão nova à cor e forma da
verdade em um abraço de entrega fremente. Viu, sentiu, ouviu e desejou
pertencer, por fim, a tudo que existe; à realidade firme que encerra toda coisa
e, inspirando com a força e vontade de sentir rebentar em ondas de veracidade
seus pulmões, sentiu-se aproximar do seu desejo de enlace.
Era
o que ele sentia, mas que não poderia conhecer como ar, o que recobria tudo
alcançável, o invólucro protetor de toda a forma adormecida. Seu maior desejo
foi então ser um com o que protegia tudo o que existia, tudo o que podia
apreender com os sentidos recém-descobertos. E a única maneira de alcançar o
que se almeja é através da ruptura com o que aprisiona.
Sentia
a força que fazia seus pés agarrarem-se fortemente à árvore e a libertação do
salto já puxando seus membros. Desta vez, um salto verdadeiro. E saltou sendo
enlaçado pelo seu desejo e força de vontade tornando seu espírito pleno,
completo. O segundo da libertação seguinte foi suficientemente necessário à
percepção última da incompletude do corpo. Sem asas, desprovido de força, caiu
com a velocidade, imediatismo e devastação dos corpos sólidos.
Em
seu berço gramado, uma criança gritou:
-Mãe!
Mamãe! Tem um bichão morto no quintal!
A
mãe aproximou-se de modo a despertar seus olhos para o horror do cadáver de um
homem simples.
Você conseguiu me transportar para o texto e acabei morrendo junto com o homem simples. Afinal, também sou um homem simples!
ResponderExcluirCortázar ficaria maravilhado. E com uma saudável e prazerosa inveja. Assim como eu.
senti o texto, amei o texto. você é , definitivamente uma escritora, até quando se diz desajeitada está na pele da escritora e ninguém acredita, o 'desajeito' faz buscar o seu texto então , é armadilha é sedução que só uma escritora sabe fazer! parabéns.
ResponderExcluirda antiga e sem blog sandra
O que mais cativa no seu texto é a fluência, o deslizar das palavras, como você as moldou a seu próprio gosto.
ResponderExcluirImpecável.
Ótimo e perturbador como já havia dito, aguardo curioso futuras incursões na área do que eu insisto em dizer, pode ser considerado uma espécie de horror
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